Em 2022, os OTCs representavam 15,9% das vendas totais das farmácias brasileiras; hoje essa participação caiu para 13,5%
Se você é proprietário de uma farmácia, provavelmente já viveu esta situação. A loja vende mais do que vendia há alguns anos. O movimento continua forte. Novas farmácias surgem na sua região. O mercado farmacêutico parece seguir crescendo.
Mas, ao mesmo tempo, algumas categorias tradicionais de venda livre já não parecem ter o mesmo protagonismo de antes. Será apenas uma percepção? Os números mostram que não.
Hoje os Medicamentos Isentos de Prescrição representam aproximadamente R$ 24 bilhões em vendas anuais no Brasil, sendo uma das categorias mais relevantes para o varejo farmacêutico.
No entanto, quando analisamos sua evolução nos últimos quatro anos, encontramos um fenômeno que merece atenção. Em 2022, os OTCs representavam 15,9% das vendas totais das farmácias brasileiras. Hoje essa participação caiu para 13,5%. Pode parecer uma diferença pequena à primeira vista.
Mas imagine uma farmácia que faturava R$ 100,00. Há poucos anos, aproximadamente R$ 16,00 vinham de OTCs. Hoje esse valor está próximo de R$ 13,50.
Por que os OTCs estão perdendo participação?
Os dados ajudam a entender. Entre abril de 2022 e abril de 2026, o mercado farmacêutico total cresceu em valor a uma taxa média anual próxima de 10%. No mesmo período, o mercado OTC cresceu pouco acima de 6% ao ano.
Quando observamos as unidades vendidas, a diferença fica ainda mais evidente. O mercado farmacêutico total cresceu cerca de 3,3% ao ano em unidades, enquanto os OTCs avançaram apenas 1,1%.
Ou seja, não estamos diante apenas de uma mudança de preços. Estamos diante de uma mudança de consumo. E isso fica ainda mais interessante quando observamos que:
* A população brasileira aumentou nesse período.
* O número de farmácias aumentou.
* Houve lançamentos importantes de produtos.
* A distribuição dos principais OTCs permaneceu elevada.
Portanto, as explicações mais óbvias parecem insuficientes.
Os bastidores das escolhas
Outro dado chama a atenção. Das dez principais classes terapêuticas OTC do país, apenas duas conseguiram crescer próximo ao ritmo do mercado farmacêutico brasileiro. As outras oito ficaram significativamente abaixo.
E estamos falando de categorias que representam mais da metade de todas as unidades vendidas no mercado OTC.
Quando analisamos algumas das marcas mais tradicionais do setor, encontramos um cenário semelhante. Marcas históricas e extremamente conhecidas pelos consumidores apresentaram crescimento modesto ou mesmo retração em vendas.
Ao mesmo tempo, algumas marcas específicas cresceram de forma muito acelerada, mostrando que o consumidor não deixou de comprar medicamentos. Talvez ele esteja comprando medicamentos diferentes.
Mas por quê? A resposta talvez não esteja dentro da própria categoria OTC. Talvez esteja nas mudanças que estão acontecendo na saúde da população brasileira.
Estamos mais saudáveis? Estamos mais preocupados com prevenção? Estamos consumindo mais vitaminas e produtos de bem-estar? Ou estamos ficando mais doentes e migrando de tratamentos simples para tratamentos que exigem consulta médica, antibióticos e medicamentos sob prescrição?
Essas são algumas das perguntas que começaremos a explorar nesta série. Porque compreender o que está acontecendo com os OTCs não é apenas uma questão estatística. É uma questão estratégica para o futuro das farmácias brasileiro.
Artigo escrito por Paulo Paiva, parceiro em Estratégia de Crescimento e Transformação do Setor de Saúde, Especialista em Inovação Farmacêutica | Inteligência Artificial, Analytics e Excelência Comercial. E-mail: paulo@biointell.lat
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