Como os médicos brasileiros enxergam a indústria farmacêutica?

Os principais adjetivos seguem os mesmos: “desvalorizados”, “sobrecarregados”, “sob pressão” e “mal remunerados”

Mais numerosa, jovem, feminina, digital e polarizada. Esse é o retrato da comunidade médica brasileira que vem se consolidando na última década e mudando o relacionamento com pacientes e o ecossistema de saúde. Mas, apesar das transformações, alguns desafios históricos permanecem.

É o que mostra a pesquisa “Médicos em Transformação: desafios atuais e implicações para a indústria farmacêutica”, realizado pela Fine Research e divulgado durante evento promovido pela Ipsos e pelo Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), em março, na capital paulista.

Em 2016, a pesquisa perguntou aos médicos quais eram os adjetivos mais associados à profissão. Nos Estados Unidos, os termos mais citados foram: “sobrecarregado”, “esforçado”, “dedicado” e “sob pressão”. No Brasil, entre os 1.040 entrevistados, 40% apontaram “desvalorizado” como principal adjetivo, contra apenas 7% nos EUA. Em seguida vieram “sobrecarregado” e “sob pressão” (22%, ante 30% nos EUA) e “mal remunerado” (10%, contra 1%).

Dez anos depois, em 2026, a nova edição do levantamento, que ouviu 361 profissionais, revela que alguns aspectos pouco mudaram no Brasil. Os principais adjetivos seguem os mesmos: “desvalorizados”, “sobrecarregados”, “sob pressão” e “mal remunerados”.

Mudanças estruturais

Na análise da Fine Research, as razões por trás dessa sensação de desvalorização estão ligadas a mudanças estruturais ocorridas no País.

Dados do Conselho Federal de Medicina mostram que a idade média de médico diminuiu para 44 anos e houve um crescimento expressivo no número de profissionais: de 131 mil, em 1990, para 576 mil, em 2024.

Hoje, a proporção de médicos por mil habitantes no Brasil já supera a de países como Japão e Estados Unidos, segundo Diego Casaravilla, CEO e fundador da Fine Research.

Outro fator relevante é a expansão das escolas médicas. Foram abertas 389 novas instituições, número inferior apenas ao da Índia.

Para os médicos entrevistados, o aumento do número de profissionais no mercado e de faculdades de medicina, muitas consideradas de baixa qualidade, impacta na superoferta dos serviços, na autonomia e no poder de negociação junto aos planos de saúde.

“Temos mais médicos, mais concorrência e comoditização da profissão”, afirmou Casaravilla.

Principais desafios

Na avaliação dos médicos consultados, alguns desafios diminuíram ao longo da última década. Manter um consultório próprio, por exemplo, tornou-se mais viável com o surgimento de formatos flexíveis, impulsionados principalmente pela pandemia.

Além disso, o acesso a materiais e medicamentos melhorou, deixando de ser um dos principais obstáculos da prática médica.

Por outro lado, novos desafios ganharam relevância:

  • 42% citaram a desinformação e a influência das redes sociais;
  • 22% mencionaram a necessidade de atualização científica constante.

 

“O médico hoje não concorre apenas com outros profissionais, mas também com o ‘doutor Google’, o ‘doutor Instagram’ e até o ‘doutor GPT’, além de atender um paciente mais informado e empoderado”, observou Casaravilla.

Mais mulheres na profissão

Historicamente masculina, a medicina brasileira passa por outra transformação. Segundo a Fine Research, as mulheres já representam 50% dos médicos no País e são maioria em especialidades como dermatologia, endocrinologia e pediatria.

Visão sobre a indústria farmacêutica

No estudo, os profissionais apontaram os principais atributos que definem a indústria farmacêutica atualmente:

  • Parceira da prática médica;
  • Focada em pesquisa e desenvolvimento;
  • Influente no sistema de saúde.

 

Por outro lado, uma parcela menor dos médicos apontou críticas em relação à indústria farmacêutica: orientada principalmente ao lucro, muito focada em marketing e excessivamente mercantilista.

“Quando olhamos esses resultados, vemos claramente uma polarização. Praticamente dois terços dos médicos falaram aspectos positivos da indústria, e um terço tem uma postura mais crítica. É interessante identificar que há segmentos bem diferenciados dentro da profissão médica”, afirmou Casaravilla.

Os profissionais também indicaram como a indústria pode apoiá-los. As principais demandas envolvem:

  1.  Educação médica: com patrocínio a congressos, cursos e treinamentos;
  2. Pesquisa científica: com financiamento de estudos clínicos e apoio a grupos de pesquisa;
  3. Parcerias institucionais: colaboração com entidades médicas e ações de informação à população.

 

Nesse contexto, o estudo aponta oportunidades para a indústria farmacêutica diante do novo perfil da classe médica. Entre elas a adaptação da linguagem e dos canais de comunicação, a incorporação de diversidade e representatividade, considerando a forte presença de mulheres; e personalização da comunicação, considerando diferentes perfis.

“O novo médico exige uma nova relação por parte da indústria”, afirmou Casaravilla

Segundo ele, há uma demanda crescente por reconhecimento e apoio. “Existe uma necessidade emocional forte. A oportunidade para a indústria está em se posicionar como parceira educacional e científica, e não apenas uma relação comercial”, concluiu.

Fonte: https://guiadafarmacia.com.br/como-os-medicos-brasileiros-enxergam-a-industria-farmaceutica/

Foto: Shutterstock

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