GLP-1 no Brasil deve atingir R$ 61 bi até 2030; veja 15 insights do Itaú BBA

Receptor já responde por 5,7% das vendas totais do varejo farmacêutico

O mercado brasileiro de medicamentos agonistas do receptor GLP-1, as chamadas canetas emagrecedoras, está crescendo em velocidade e escala superiores às projeções mais otimistas.

Um relatório do Itaú BBA, divulgado em 21 de junho de 2026 a partir do primeiro evento cross-setorial sobre o tema realizado no País, aponta que o mercado total de GLP-1 — somando canais formais e informais — deve atingir R$ 61 bilhões até 2030.

O estudo foi produzido em parceria com a rede Pague Menos e reuniu executivos sêniors de setores tão distintos quanto aviação, vestuário, alimentos e planos de saúde, evidenciando que o impacto dos GLP-1 já extrapolou as fronteiras do mercado farmacêutico.

A seguir, os principais dados e análises que o relatório traz sobre o mercado brasileiro de GLP-1:

  1. Mercado total estimado em R$ 61 bilhões até 2030

O banco projeta que o mercado de GLP-1 no Brasil atingirá R$ 61,1 bilhões em 2030, considerando os segmentos formal (farmácias e drogarias) e informal (farmácias de manipulação e produtos importados do Paraguai). Em 2026, a estimativa é de R$ 27 bilhões, e o canal formal deve responder por R$ 35 bilhões dos R$ 61 bilhões projetados para o final da década.

  1. GLP-1 já responde por 5,7% das vendas totais do varejo farmacêutico

Dados da consultoria IQVIA mostram que o mercado formal de GLP-1 chegou a R$ 14,6 bilhões no acumulado de 12 meses encerrado em abril de 2026, alta de 110% na comparação anual. A categoria já representa 5,7% das vendas totais do setor farmacêutico, ante menos de 3% um ano antes, contribuindo com cerca de 3,1 pontos percentuais do crescimento de 11,7% registrado no período.

  1. Mercado informal equivale a 1,7 vez as vendas do Mounjaro

O relatório estima que a soma do mercado de manipulação com os produtos importados do Paraguai atingiu R$ 12,5 bilhões nos últimos 12 meses — cifra equivalente a 1,7 vez as vendas formais do Mounjaro no mesmo período (R$ 7,3 bilhões). Apenas o segmento de manipulação é estimado em R$ 10 bilhões no acumulado de 12 meses até março de 2026, a um custo mensal médio de R$ 800 por tratamento.

  1. Primeiro similar da semaglutida chega a R$ 287 por mês

Em 15 de junho de 2026, a EMS lançou o Ozivy, primeiro medicamento similar à semaglutida produzido no Brasil, com preço introdutório de R$ 287 por mês nos três primeiros meses de tratamento — cerca de 70% abaixo do preço médio do Ozempic e do Wegovy, que gira entre R$ 900 e R$ 1.000 por mês. O relatório projeta que o tíquete médio formal da semaglutida converge para R$ 300 por mês até 2030, ante os R$ 550 estimados anteriormente.

  1. Redução de preço do similar dobrou a base de pacientes em uma rede

A experiência do Poviztra — similar à semaglutida desenvolvido pela Novo Nordisk em parceria com a Eurofarma — na rede Pague Menos oferece uma leitura concreta sobre elasticidade. Após um corte de 41,1% no preço, o volume de unidades vendidas aumentou 178%, e a base de pacientes ativos cresceu 100,8%. Mais relevante: 84% dos novos compradores nunca haviam adquirido um produto GLP-1 na rede, e a canibalização de usuários já existentes foi de apenas 9,9%.

  1. Metade dos pacientes abandona o tratamento em três meses

Dados longitudinais da IQVIA revelam um perfil bifurcado de adesão: 50% dos pacientes interrompem o tratamento nos primeiros três meses, enquanto a outra metade permanece em terapia por uma média de 11 meses, com dose mediana sustentada de 4,1 mg. O banco atualizou sua estimativa de duração média ponderada de tratamento para sete meses. Pacientes que interrompem e retomam o tratamento tendem a apresentar eficácia reduzida, fenômeno associado na literatura médica à dessensibilização dos receptores.

  1. Apenas 4,6% dos domicílios brasileiros usam GLP-1 atualmente

Painel domiciliar da NielsenIQ, de janeiro de 2026, mostra que 4,6% dos lares brasileiros utilizam GLP-1 injetável atualmente — ante 12% nos Estados Unidos e 15% no Canadá. Outros 26,1% se identificam como potenciais usuários: 16% citam custo como barreira e 10% apontam medo de efeitos colaterais ou falta de informação. O custo anual médio de tratamento, em torno de R$ 8.400, representa entre 20% e 25% da renda domiciliar média brasileira, proporção muito superior à observada em mercados desenvolvidos.

  1. Mounjaro cortou preços em até 35% como movimento defensivo

Em 12 de junho de 2026, a Eli Lilly anunciou o programa “Lilly Melhor Para Você”, reduzindo os preços do Mounjaro em até 35%. O combo inicial (2,5 mg + 5 mg) passou de R$ 3.400 para R$ 2.250 (R$ 1.125 por mês). O relatório avalia que o movimento busca reduzir a diferença de preço entre o canal formal e o mercado informal de tirzepatida — composta por manipulação (R$ 800 a R$ 1.200 por mês) e produtos paraguaios (R$ 700 a R$ 900 por mês no Brasil).

  1. Incorporação ao SUS é o principal risco de longo prazo para farmácias

O documento destaca que qualquer eventual inclusão dos GLP-1 no Sistema Único de Saúde (SUS) representaria o principal risco estrutural para a tese de crescimento das redes de farmácias. Hoje, a totalidade do mercado formal flui pelo canal privado. O Ministério da Saúde anunciou um protocolo piloto com 250 pacientes superobesos no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, como primeiro passo de avaliação. O cenário-base do banco prevê início restrito, focado em pacientes com obesidade grave e comorbidades cardíacas.

  1. GLP-1 já é a maior categoria de reembolso em benefícios corporativos

Dado divulgado pela Novo Nordisk durante o evento: os medicamentos GLP-1 já se tornaram a maior categoria de reembolso de medicamentos em programas de benefícios corporativos das principais empresas brasileiras. Paralelamente, a endocrinologia tornou-se a segunda especialidade médica mais acessada na operadora Porto Saúde, com aumento relevante no custo das consultas em correlação com a demanda por GLP-1.

  1. Riachuelo registra queda de 5% no tamanho médio das peças vendidas

No setor de vestuário, os efeitos já são mensuráveis. A Riachuelo reportou redução de 5% no mix de tamanhos de suas peças — com os tamanhos PP e P com falta de estoque e os tamanhos G e GG acumulando-se nas lojas. A empresa projeta contração de 6% no mercado de moda tamanho grande (plus size) em 2026, revertendo anos de crescimento. Oitenta por cento dos consumidores que perdem peso relatam necessidade de renovar o guarda-roupa.

  1. Heineken e Nestlé já ajustam portfólio com base nos usuários de GLP-1

No setor de alimentos e bebidas, a adaptação é concreta. A Heineken reforçou o portfólio de produtos sem álcool e lançou o Heineken Ultimate — versão sem glúten, com baixo teor calórico e menor graduação alcoólica — como resposta ao padrão de consumo mais leve dos usuários de GLP-1. A Nestlé, por sua vez, aposta na divisão de Nutrição & Saúde com foco em proteínas e funcionais, citando que 71% dos consumidores brasileiros declaram buscar ingestão diária adequada de proteína.

  1. Azul estima economia de R$ 3 milhões por mês a cada 2 kg perdidos por passageiro

A aviação também sente os efeitos. O presidente da Azul, John Rodgerson, revelou que, para cada redução de 2 kg no peso médio dos passageiros, a companhia economizaria cerca de R$ 3 milhões por mês em combustível — item que já representa 50% dos custos da empresa, pressionado pela alta do querosene de aviação nos últimos meses.

  1. Capacidade industrial pode atender de 2 a 4 vezes a demanda atual

O executivo Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS, afirmou publicamente que a empresa atingirá produção de 1,2 milhão de canetas por mês em quatro meses após o lançamento do Ozivy, com uma segunda linha de produção disponível para ativação. A estimativa consolidada da indústria, segundo o documento, é que a capacidade instalada pode suportar de 2 a 4 vezes a demanda atual — indicativo de que eventuais gargalos de abastecimento devem ser superados no curto prazo.

  1. Anvisa intensificou fiscalização, mas mercado informal persiste

O órgão regulador editou três normas relevantes desde meados de 2025 para restringir a manipulação de GLP-1 e já realizou 11 inspeções, oito interdições e dez ordens de proibição de importação no primeiro trimestre de 2026. Um novo marco normativo, debatido em abril de 2026, impõe aprovação lote a lote de importações de insumos farmacêuticos ativos (IFA) de GLP-1, o que funcionaria como restrição de fato ao crescimento do mercado informal. O banco avalia como alta a probabilidade de aprovação dessa instrução normativa nos próximos 12 meses.

Referências

  1. It’s Just the Beginning — First Cross-Sector GLP-1 Event. Itaú BBA. Relatório de análise de mercado, junho de 2026. Acesso em: 29/06/2026.
  2. Entrevista com Marcus Sanchez (VP, EMS), concedida ao evento Itaú BBA GLP-1 Cross-Sector. Acesso em: 21/06/2026.
  3. Dados de painel domiciliar NielsenIQ, janeiro de 2026, citados no relatório Itaú BBA. Acesso em: 29/06/2026.
  4. Dados longitudinais IQVIA sobre duração e adesão ao tratamento com GLP-1, citados no relatório Itaú BBA. Acesso em: 29/06/2026.
  5. Dados de desempenho do Poviztra na rede Pague Menos, citados no relatório Itaú BBA. Acesso em: 29/06/2026.

 

Fonte: https://guiadafarmacia.com.br/glp-1-no-brasil-deve-atingir-r-61-bi-ate-2030-veja-15-insights-do-itau-bba/

Foto: Shutterstock

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