Mais farmácias fecham do que abrem e acendem alerta sobre necessidade gestão e digitalização no setor

É comum encontrar empresários que não possuem clareza sobre sua rentabilidade real, não dominam a formação de preços e operam sem controle preciso sobre custos, impostos e margens

O varejo farmacêutico brasileiro acaba de emitir um sinal relevante de mudança de ciclo. Pela primeira vez na série recente, o número de farmácias fechadas superou o de novas aberturas, indicando que o setor entrou em uma fase mais exigente e seletiva, especialmente para os pequenos e médios empresários.

Dados da IQVIA mostram que, após atingir 94.237 unidades em dezembro de 2025, o total caiu para 93.975 em janeiro de 2026 e seguiu em retração para 93.850 em fevereiro. Embora a variação percentual pareça pequena, o movimento marca uma inflexão importante: o crescimento deixou de ser automático.

Para Stephenson Seleber, presidente da Alpha7 Software e especialista em varejo farmacêutico, esse cenário não representa uma crise do setor, mas sim um aumento significativo no nível de exigência. “O mercado continua forte, mas ficou mais duro. Hoje não existe mais espaço para erro, improviso ou falta de gestão”, afirma.

Mudança no comportamento do mercado escancara limitações históricas de gestão no setor

Na avaliação de Seleber, o fechamento de farmácias é consequência direta de problemas estruturais que sempre existiram, mas que agora ficaram mais evidentes diante de um ambiente mais competitivo. Segundo ele, ainda é comum encontrar empresários que não possuem clareza sobre sua rentabilidade real, não dominam a formação de preços e operam sem controle preciso sobre custos, impostos e margens.

“Tem muita farmácia que não sabe se está tendo lucro. Trabalha com percepção, não com dados. Em um mercado mais competitivo, isso deixa de ser um risco e passa a ser uma sentença”, alerta o presidente da Alpha7 . Ele destaca que decisões baseadas apenas na experiência prática já não são suficientes para sustentar o negócio no cenário atual, que exige método, análise e disciplina operacional.

Outro fator que vem impactando diretamente o desempenho das farmácias é a crescente complexidade tributária, que tem alterado a dinâmica de formação de preços e exigido maior preparo técnico por parte dos empresários. Mudanças como o fim da substituição tributária em alguns estados modificaram completamente a lógica de cálculo, exigindo entendimento sobre crédito e débito de impostos, algo que nem todos os varejistas dominam.

“O que antes era mais simples hoje exige conhecimento técnico. Quem não entende o impacto de ICMS, PIS e COFINS acaba errando na precificação e perdendo margem sem perceber”, explica. Na prática, isso significa que muitas farmácias continuam vendendo, mas com rentabilidade comprometida, o que acelera processos de endividamento e fechamento.

Custos invisíveis, como o delivery gratuito, passam a comprometer a saúde financeira das lojas

Além da questão tributária, Seleber chama atenção para um problema silencioso, mas cada vez mais relevante: o custo das entregas. De acordo com ele, muitas farmácias mantêm o delivery gratuito como estratégia competitiva, mesmo diante de custos elevados, o que impacta diretamente o caixa.

“Tem farmácia gastando mais de R$ 20 mil por mês com entrega e não cobra nada do cliente. Isso vira um ralo financeiro. O consumidor já paga delivery em outros segmentos, mas a farmácia continua absorvendo esse custo”, afirma. Para o especialista, esse tipo de decisão, muitas vezes tomada por pressão do mercado local, contribui para deteriorar margens e enfraquecer o negócio no médio prazo.

Se há um ponto que, na visão de Seleber, explica de forma mais contundente o atual cenário, ele está na transformação digital do consumo. Enquanto plataformas como iFood e Mercado Livre ampliam investimentos e consolidam sua presença no setor farmacêutico, grande parte das farmácias independentes ainda não conseguiu se inserir de forma estruturada nesse ecossistema.

“O concorrente não está mais na porta da farmácia. Está no aplicativo, no celular do cliente. Quem não está no digital perde relevância e deixa de ser opção de compra”, afirma. Ele destaca que o impacto já pode ser percebido no dia a dia, com redução de fluxo nas lojas físicas e queda de faturamento em diversas operações. “Tem farmácia vendendo menos hoje do que no ano passado e ainda não entendeu que está perdendo cliente para o digital”, complementa.

Associativismo segue relevante, mas precisa evoluir para acompanhar a nova realidade do mercado

Embora reconheça o papel histórico do associativismo no fortalecimento do varejo independente, Seleber pondera que o modelo precisa avançar para continuar sendo efetivo no novo cenário. Segundo ele, apenas oferecer escala de negociação não é mais suficiente para garantir competitividade.

“O associativismo ajuda, mas não resolve tudo. Se não entregar tecnologia, dados, integração digital e gestão de verdade, ele não acompanha a velocidade do mercado”, afirma. Na visão do especialista, o varejista precisa ir além da estrutura coletiva e assumir protagonismo na profissionalização do próprio negócio.

Apesar dos desafios, o varejo farmacêutico segue sendo um dos segmentos mais resilientes da economia brasileira. No entanto, isso não significa estabilidade para todos os players. O cenário atual indica que o mercado continuará crescendo, mas de forma mais concentrada e exigente, favorecendo operações mais estruturadas e preparadas. “O setor não está em crise, mas ficou mais seletivo. Quem não evoluir vai sair do mercado”, resume Seleber.

O fechamento líquido de farmácias registrado no início de 2026 pode ser apenas o primeiro sinal visível de uma transformação mais profunda no varejo farmacêutico brasileiro. Para Seleber, o principal desafio agora é de mentalidade. “O empresário precisa entender que não é mais uma opção. Ou ele se adapta ao novo cenário, ou ele vai fechar. O mercado mudou e não vai voltar atrás.”

Fonte: Assessoria de imprensa Alpha7

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