Alexandre França, CEO da MedQuímica
Companhia deve fechar o ano fiscal com faturamento entre R$ 400 milhões e R$ 420 milhões, crescimento de cerca de 80% em relação ao período anterior
A MedQuímica encerra seu ano fiscal em março com resultados históricos e uma estratégia clara de reposicionamento no mercado. Dando continuidade à série de reportagens de radiografias do setor, o Panorama Farmacêutico visitou com exclusividade a planta da empresa em Juiz de Fora (MG).
Sob a liderança do CEO Alexandre França, que acumula mais de 30 anos de experiência no setor e já passou pelas multinacionais GSK, Novartis e BMS, a companhia deixou de focar apenas em genéricos tradicionais para investir em medicamentos de maior valor agregado.
Fundada em 1970, a MedQuímica passou por uma transformação decisiva em 2015, quando foi adquirida pela Lupin. A proposta da companhia indiana foi utilizar a estrutura local para expandir sua atuação no Brasil. Inicialmente, o plano era posicionar a empresa como distribuidora de genéricos do portfólio global. No entanto, a forte concorrência no segmento levou a uma mudança de rumo.
A guinada em direção aos genéricos de especialidades trouxe mais rentabilidade, em oposição aos medicamentos amplamente comoditizados. “Não queremos competir com dipirona ou paracetamol, mas sim atuar em segmentos como respiratório, cardiometabólico, oncológico e biossimilares”, declara.
Os primeiros resultados da nova estratégia já aparecem nos números. Segundo França, a MedQuímica deve fechar o ano fiscal com faturamento entre R$ 400 milhões e R$ 420 milhões, crescimento de cerca de 80% em relação ao período anterior. Um dos principais motores desse desempenho foi o lançamento do genérico da dapagliflozina, medicamento voltado ao tratamento de diabetes tipo 2.
A companhia prevê um pipeline robusto, com cerca de 35 lançamentos em cinco anos, média de sete por ano. Ainda em 2026, um novo produto na área cardiometabólica deve chegar ao mercado. Além disso, o laboratório avalia oportunidades em oftalmologia e aposta em frentes como SNC e oncologia. Também estão em negociação três acordos de licenciamento para reforçar o portfólio.
Presença nacional e avanço no varejo
Com distribuição em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal, a MedQuímica já está presente em cerca de 70 mil farmácias. A companhia ampliou atuação junto a grandes redes e grupos nacionais, além de manter parcerias com distribuidores regionais. Entre os clientes estão players como RD Saúde, DPSP e Pague Menos.
Para fortalecer ainda mais sua presença, a farmacêutica planeja estruturar, a partir de 2027, uma equipe própria de visitação médica, movimento que marca uma nova fase de relacionamento com prescritores.
Apesar do crescimento acelerado, França afirma que a posição em rankings de mercado não é prioridade. “Não queremos brigar para ser número 5 ou 15. Pretendemos ser relevantes para o mercado, para os pacientes e para o grupo global”, avalia.
Investimentos robustos até 2030
O diretor financeiro Paulo Pestana, na empresa desde 2021, detalhou o planejamento da farmacêutica após um período de reestruturação e instabilidade. A operação brasileira tornou-se recentemente a unidade mais lucrativa das cerca de 15 subsidiárias do grupo Lupin em todo o mundo, impulsionada por produtos oriundos do portfólio global.
No Brasil, esse direcionamento se traduz em um plano ambicioso de expansão do portfólio. “Não deixamos de ser uma empresa de genéricos, o que faz parte do nosso DNA. Mas queremos avançar em tratamentos mais complexos, ampliando o acesso dos pacientes a terapias mais sofisticadas”, explica o CFO.
Para sustentar essa transformação, a companhia prevê um volume significativo de investimentos. Até 2030, devem ser aplicados mais de R$ 100 milhões em pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D), além de R$ 50 milhões a R$ 60 milhões destinados à modernização industrial.]
Os aportes na fábrica terão como foco a otimização da estrutura já existente, com ampliação da automação e adequações às exigências regulatórias. A planta ocupa uma área de 33 mil m² e opera com linhas de produção de sólidos e líquidos. Entre os planos está o aumento da capacidade produtiva em processos mais complexos.
Logística integrada e foco no cliente
A operação de produção, logística e excelência operacional da MedQuímica vem passando por uma transformação que combina proximidade com clientes, controle rigoroso de processos e investimentos em automação. À frente dessa estrutura está a gerente Marcela Ferrugini.
Uma das âncoras da operação é o modelo logístico centralizado. Toda a distribuição da companhia parte de um único centro em Juiz de Fora, de onde os produtos são enviados para todo o país. O CD conta com cerca de 4 mil posições de armazenagem para produtos acabados, dentro de uma estrutura maior de aproximadamente 5 mil posições no almoxarifado.
“Apesar da centralização, a capilaridade é garantida por uma rede de seis transportadoras parceiras e por um modelo de operação logística (OL) integrado diretamente às vendas”, explica. Além do transporte rodoviário tradicional, a empresa utiliza cargas dedicadas e, quando necessário, transporte aéreo para reduzir prazos, especialmente em regiões como Norte e Nordeste.
Outro avanço foi a criação de uma estrutura dedicada de atendimento ao cliente B2B, voltada para distribuidores. A busca por excelência também se reflete no controle de estoques. A companhia atingiu índice de acuracidade de inventário superior a 99,9% em auditoria conduzida pela KPMG.
Inovação vinda da base
Um dos programas que reforçam essa cultura é o Mão na Massa, iniciativa interna de incentivo à inovação. A proposta é dar voz aos colaboradores para sugerir melhorias operacionais. Ideias simples têm gerado ganhos relevantes, como a otimização de embalagens que reduziu o tempo de processo de 36 para oito horas. Na logística, sugestões da equipe também permitiram melhor aproveitamento de espaço no estoque, com reorganização de posições e criação de divisórias para itens menores.
Controle de qualidade em toda a cadeia
Atuando majoritariamente com medicamentos genéricos e similares, um dos principais desafios da companhia é garantir a intercambialidade com os produtos de referência. “Os processos replicam características do produto original, e seguem monitorados ao longo de todo o ciclo de vida por um sistema robusto de gestão da qualidade’’, pontua a gerente de qualidade Mariana de Castro.
Nova cultura de gestão
A transformação da cultura organizacional foi o ponto de partida para a MedQuímica conquistar, pela primeira vez, este ano, a certificação da Great Place to Work e contribuir para o desempenho global da Lupin no Índice Dow Jones de Sustentabilidade. Quem lidera esse movimento é a diretora de Pessoas e Futuro, Roberta Carlini.
Ela assumiu a área com o desafio de reverter um cenário de baixo engajamento e promover uma mudança estrutural no ambiente de trabalho. Uma das iniciativas dessa jornada foi a criação de canais diretos de diálogo, como o programa Pão de Queijo com RH, encontros mensais que aproximam funcionários da alta liderança. Paralelamente, a empresa implantou a gestão participativa, reunindo lideranças de diferentes áreas para decisões conjuntas, reduzindo silos e promovendo maior integração e empatia entre equipes.
Complementando essa frente, o Educa Med passou a subsidiar cursos de idiomas, MBAs e especializações, reforçando o compromisso com o crescimento interno. A empresa ainda ampliou o acesso a cuidados com psicólogos – com atendimentos ilimitados.
MEDQUÍMICA
Fundação: 1970
Faturamento estimado: R$ 420 milhões
Adquirida pelo grupo indiano Lupin em 2015
Sede: Juiz de Fora (MG)
Colaboradores: 470
Áreas industrial e administrativa: 33 mil m²
SKUs: 80
Centro de Distribuição: capacidade para cerca de 4 mil posições
Faturamento: Entre R$ 400 milhões e R$ 420 milhões em março de 2026 (ano fiscal)
Capilaridade: 70 mil PDVs, majoritariamente no Sudeste e Nordeste, em parceria com 100 clientes distribuidores nacionais e regionais em todo o país.
Foto: Divulgação