Mintel revela tendências de consumo que devem ganhar força em 2027

Oportunidades de crescimento estarão cada vez mais relacionadas à capacidade das empresas de oferecer resultados percebidos pelo consumidor, simplificar decisões e demonstrar os benefícios de suas soluções

Em vez de buscar soluções isoladas, os consumidores tendem a combinar diferentes recursos para alcançar objetivos específicos, como melhorar o bem-estar, cuidar da pele, dormir melhor e simplificar as tarefas domésticas.

Essa é a principal perspectiva apresentada pela consultoria global Mintel no relatório Global Predictions 2027, que traz as tendências de consumo para 2027, as transformações no comportamento do consumidor e as oportunidades para as empresas.

O estudo denomina esse movimento de Products to Systems (de produtos para sistemas). A proposta é que as marcas deixem de concentrar sua atuação apenas em categorias e itens individuais e passem a considerar como suas ofertas se conectam a outras soluções utilizadas pelo consumidor.

O relatório relaciona essa transformação a fatores como avanços tecnológicos, inteligência artificial (IA), mudanças climáticas, instabilidade econômica e expansão de medicamentos GLP-1.

Diante desse cenário, os consumidores procuram combinações personalizadas de produtos, serviços, tecnologias e hábitos para atender às próprias necessidades.

E isso acontece em um cenário em que a  inovação baseada apenas no lançamento de produtos perde espaço. Segundo dados da Global New Products Database citados no documento da Mintel, apenas 33% dos lançamentos globais de bens de consumo embalados (CPG, na sigla em inglês) no último ano eram realmente novos, contra 43% uma década antes.

A análise sugere que as oportunidades de crescimento estarão cada vez mais relacionadas à capacidade das empresas de oferecer resultados percebidos pelo consumidor, simplificar decisões e demonstrar os benefícios de suas soluções.

Bem-estar: resultados passam a orientar o consumo

O conceito de bem-estar ganha espaço como um objetivo que atravessa diferentes categorias.

Alimentos, bebidas, suplementos, cuidados pessoais, serviços de saúde e tecnologias de monitoramento passam a integrar rotinas construídas para alcançar resultados como mais energia, sono de melhor qualidade, envelhecimento saudável e controle do peso.

De acordo com a Mintel, o mercado de bem-estar já demonstra essa dinâmica, pois não se limita a uma categoria tradicional.

O consumidor pode combinar mudanças na alimentação, atividade física, suplementos, aplicativos e dispositivos vestíveis para acompanhar seu progresso.

A tendência também aumenta a exigência por evidências. Com a ampliação da oferta de produtos funcionais e de alegações relacionadas à saúde, as marcas precisam demonstrar de que maneira contribuem para os objetivos propostos. A simples associação de um produto a um benefício pode não ser suficiente para garantir a recompra.

O relatório destaca que os dados de dispositivos e serviços de monitoramento podem ajudar a avaliar resultados, mas precisam ser traduzidos em orientações compreensíveis.

O desafio não é apenas medir indicadores, mas ajudar o consumidor a entender o que mudou e quais ações podem ser tomadas a partir dessas informações.

Beleza: cuidados com a pele se conectam ao bem-estar

Na categoria de beleza e cuidados pessoais, a Mintel identifica uma mudança na busca por resultados que vão além da aparência imediata.

Cuidados com a pele, envelhecimento saudável, recuperação e bem-estar passam a orientar combinações de cosméticos, tratamentos, tecnologias de diagnóstico e hábitos cotidianos.

O estudo observa que os consumidores têm acesso crescente a ferramentas de análise da pele, monitoramento da saúde e recomendações personalizadas.

Com isso, a escolha de produtos pode ser influenciada não apenas pela promessa apresentada na embalagem, mas também pela experiência de uso e pelos resultados percebidos.

A tendência também aproxima segmentos antes tratados separadamente. A saúde da pele, por exemplo, passa a ser relacionada à alimentação, à hidratação, ao sono, ao controle do estresse e ao uso de produtos específicos. Ingredientes como o colágeno ilustram essa conexão, com presença em diferentes categorias de consumo.

O relatório cita como exemplo brasileiro a CARE Natural Beauty, que mantém uma parceria com o Café Por Elas em sua loja-conceito em São Paulo.

O espaço reúne bebidas inspiradas em cuidados com a pele, análise cutânea, orientação personalizada sobre skincare, oficinas e eventos para a comunidade.

Alimentos e bebidas: consumo orientado por objetivos

A alimentação também passa a ser avaliada por sua contribuição para objetivos que ultrapassam sabor, conveniência e saciedade.

Segundo a Mintel, os consumidores consideram cada vez mais como alimentos e bebidas podem apoiar a energia ao longo do dia, a qualidade do sono, o controle do peso, a saúde da pele e o equilíbrio emocional.

Essa mudança amplia as possibilidades de conexão entre alimentos convencionais, bebidas funcionais, suplementos, beleza e saúde.

Proteínas, por exemplo, deixaram de estar associadas apenas à nutrição esportiva. A hidratação também passou a envolver diferentes formatos, como bebidas funcionais, produtos lácteos e soluções com eletrólitos.

O estudo identifica ainda o avanço do chamado stacking, comportamento que consiste em combinar hábitos, produtos, serviços e tecnologias para alcançar um resultado.

Uma pessoa que busca mais disposição, por exemplo, pode associar alimentação, lanches, hidratação e suplementos, em vez de depender de um único produto.

O relatório também aponta que o uso de medicamentos GLP-1 para controle do peso amplia a disputa pela atenção dos consumidores. Empresas de alimentação, suplementos, beleza e cuidados pessoais buscam desenvolver ofertas complementares para atender a necessidades relacionadas a essa jornada.

Sustentabilidade: mudanças de hábito também influenciam escolhas

A preocupação com o uso de recursos naturais aparece entre os sinais de transformação identificados pela Mintel.

No Brasil, 55% dos adultos que compram produtos para banho reduziram a duração do banho para economizar água, segundo o relatório.

O dado mostra que parte dos consumidores já incorporou uma mudança de comportamento associada à economia de recursos.

Para as empresas, esse movimento reforça a importância de considerar o impacto ambiental e o uso eficiente de recursos no desenvolvimento de produtos e serviços.

Produtos que favoreçam rotinas mais simples e o consumo consciente, por exemplo, podem dialogar com necessidades práticas do cotidiano.

A Mintel também destaca que as pressões ambientais, econômicas e tecnológicas estão interligadas e influenciam as decisões de compra. Isso exige que as empresas compreendam as condições em que seus produtos são utilizados, em vez de tratar cada atributo de forma isolada.

Inteligência artificial e dados: apoio às decisões de consumo

A inteligência artificial e as tecnologias de monitoramento devem ampliar as possibilidades de personalização do consumo.

No cenário descrito pela Mintel, ferramentas digitais poderão ajudar as pessoas a identificar necessidades, comparar alternativas e receber recomendações que considerem diferentes aspectos de sua rotina.

Na área de bem-estar, por exemplo, dados de dispositivos vestíveis e testes realizados em casa ou em lojas podem apoiar decisões relacionadas a hábitos, alimentação e cuidados pessoais.

Na beleza, ferramentas de análise da pele podem orientar a escolha de produtos e acompanhar mudanças ao longo do tempo.

A tecnologia, entretanto, não elimina a necessidade de confiança. O relatório aponta que os consumidores podem recorrer a dados pessoais, experiências próprias e avaliações de outras pessoas para verificar se as promessas das marcas correspondem aos resultados.

As tendências apresentadas pela Mintel para 2027 convergem para uma mudança na lógica de competição: as empresas precisarão mostrar como seus produtos contribuem para objetivos concretos e como podem ser integrados a outras soluções.

O consumidor não organiza necessariamente suas escolhas pelas categorias utilizadas pelo mercado. Ele busca alcançar resultados. As marcas que conseguirem compreender essas necessidades e ocupar um papel relevante nas rotinas terão mais condições de construir relacionamentos duradouros.

Fonte: https://guiadafarmacia.com.br/mintel-revela-tendencias-de-consumo-que-devem-ganhar-forca-em-2027/

Foto: iStock

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