Por que 6 mil farmácias fecham no Brasil

Dificuldades na gestão colocam a competitividade das independentes no centro da agenda do associativismo farmacêutico

Mais de 6 mil farmácias fecham as portas no Brasil a cada 24 meses, segundo dados da Close-Up International noticiados pelo Panorama Farmacêutico em abril deste ano. De acordo com o estudo, 9.126 estabelecimentos encerraram atividades nos últimos 12 meses até fevereiro de 2026. E novamente são as pequenas redes e PDVs independentes que encabeçam esse movimento.

O ritmo de aberturas também segue em baixa, com a inauguração de 8.280 lojas, déficit de 846.  Ivan Engel, diretor de serviços e insights ao varejo e distribuição da Close-Up International, comenta que o canal vive ciclo de profissionalização. “Grandes redes e integrantes de federações vêm se estruturando e oferecendo dados de mercado para que as farmácias planejem melhor seu mix e escolham pontos comerciais mais adequados”, analisa.

Os números expõem desafios que vão além da concorrência. Baixa eficiência operacional, gestão financeira limitada ao fluxo de caixa, compras sem inteligência analítica e pouco uso de indicadores comprometem margens e rentabilidade.

A questão que mobiliza o varejo associativo é como as farmácias independentes podem ganhar competitividade em um mercado cada vez mais complexo. Para a Abrafad, parte da resposta está na evolução do associativismo, com mais acesso a conhecimento, dados, capacitação e ferramentas de gestão.

“A farmácia não pode mais enfrentar todas as transformações de forma isolada. O mercado mudou, o consumidor mudou e a concorrência também. O associativismo precisa acompanhar esse movimento e gerar instrumentos concretos para ajudar o empresário”, afirma Nilson Ribeiro, diretor-executivo e institucional da Abrafad, em entrevista exclusiva ao Panorama Farmacêutico.

Gestão é o principal gargalo

Pesquisa com estabelecimentos ligados às redes associadas à Abrafad mostrou que, para quase 100% dos entrevistados, o maior entrave está na gestão do negócio. As dificuldades envolvem capacidade gerencial, organização dos processos e uso das informações disponíveis para decisões comerciais e operacionais.

“O varejista quer ajuda e está disposto a avançar. Mas não basta disponibilizar uma ferramenta. É preciso transformar dados em informação útil e informação em decisão”, reforça Ribeiro. O desafio é fazer com que sistemas e recursos disponíveis contribuam efetivamente para compras, estoque, preços, mix e desempenho financeiro.

Mais valor para o associado

A movimentação de lojas entre diferentes redes associativistas também eleva a pressão sobre essas estruturas. Os empresários buscam melhores condições comerciais, suporte operacional e instrumentos capazes de melhorar o desempenho.

“O associado precisa perceber valor nessa relação. Ele precisa encontrar acesso a conhecimento, inteligência e oportunidades que dificilmente teria sozinho”, diz Ribeiro.

Nesse cenário, a entidade estruturou o Abrafad 2030, desenvolvido ao final de 2025 com a HS&E – Consultoria em Gestão e Varejo e o apoio de um Conselho Consultivo formado por representantes das redes, indústria, distribuição, varejo e empresas especializadas.

A iniciativa reúne diferentes agentes da cadeia para discutir problemas comuns e desenvolver soluções aplicáveis às operações.

Dados para antecipar decisões

Em 2026, a agenda avançou com os Encontros de Líderes do Associativismo. O primeiro ocorreu em março, durante a Abradilan. Em 5 de maio, mais de 100 executivos participaram de uma nova edição. A inteligência de mercado esteve entre os principais temas. A proposta é usar informações para comparar desempenhos, identificar oportunidades e antecipar problemas.

A lógica é trocar o “retrovisor”, baseado apenas no que já aconteceu, pelo “para-brisa” dos indicadores, capaz de orientar os próximos movimentos. “A decisão intuitiva torna-se cada vez mais arriscada. O empresário precisa saber onde está, como se posiciona em relação ao mercado e quais fatores estão afetando seus resultados”, enfatiza o executivo.

Tecnologia precisa chegar à loja

A agenda também inclui soluções digitais para relacionamento com consumidores, comunicação e capacitação das equipes. No encontro de maio, foi apresentada a Abralive, plataforma baseada em Inteligência Artificial Generativa, com integração entre CRM, BI, aplicativo de compras e benefícios em saúde.

Também entrou em pauta a Abramind, voltada à comunicação e ao treinamento de proprietários, gestores, farmacêuticos e atendentes. “A transformação não acontece apenas na liderança. Ela precisa chegar ao ponto de venda”, pontua.

Tributação, entregas e fluxo de caixa

O próximo Encontro de Líderes do Associativismo está marcado para 6 de outubro de 2026. A programação deverá abordar desafios tributários e a sobrevivência das PMEs, omnicanalidade, novos entrantes nos aplicativos de entrega e gestão inteligente do fluxo de caixa.

Os temas refletem mudanças que já impactam a rotina das independentes, da estrutura de custos à disputa pelos novos canais de relacionamento e compra.

Trade Marketing entra na agenda

Também em outubro está previsto o lançamento da Abratrade, plataforma voltada às ações de trade marketing e à execução no ponto de venda.

A ferramenta terá foco no aumento do tíquete médio, no fortalecimento das categorias de não medicamentos e na expansão estratégica do mix.

“Olhar para o negócio de forma integrada é fundamental. Isso envolve finanças, compras, sortimento, execução, categorias e relacionamento com o consumidor. Uma decisão impacta diretamente a outra”, destaca Ribeiro.

Hub amplia atuação em saúde

Entre o final de 2026 e 2027, a entidade prevê a consolidação de um hub de saúde, reunindo serviços e soluções para as empresas associadas. “A força coletiva precisa gerar valor. Quando as empresas compartilham conhecimento, ampliam o acesso a recursos e enfrentam questões comuns de forma coordenada, aumentam suas condições de competir. É essa evolução que queremos construir”, finaliza Ribeiro.

Fonte: https://panoramafarmaceutico.com.br/exclusivo-por-que-6-mil-farmacias-fecham-no-brasi

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