Da esquerda para direita: Jairo Oliveira, Fábio Moreira, Valdênio Araújo e Liliane Saad. No telão, Julia Calatrone
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa para se consolidar como uma das principais forças de transformação da indústria farmacêutica. Esse foi o ponto de partida do evento Desafios e impactos do uso de inteligência artificial nas operações industriais farmacêuticas, realizado pelo Sindusfarma nesta terça-feira (07), que reuniu especialistas para discutir avanços, riscos e caminhos para o uso estratégico da tecnologia no setor.
Voltado a profissionais das áreas de qualidade, industrial, logística e operações, além de fornecedores da cadeia farmacêutica, o encontro promoveu um debate aprofundado sobre o nível de maturidade das empresas em inteligência artificial, os principais gargalos enfrentados e as prioridades para acelerar a transformação tecnológica. Também foram apresentadas tendências internacionais de regulação aplicáveis ao uso de IA na indústria farmacêutica.
A abertura ficou a cargo de Julia Diniz Calatrone, especialista em Regulação e Vigilância Sanitária na Anvisa, que destacou o potencial transformador da inteligência artificial, ao mesmo tempo em que alertou para os riscos associados ao seu uso inadequado. Segundo ela, a tecnologia pode gerar ganhos expressivos, mas exige cautela redobrada em um setor onde erros não são toleráveis.
“As inteligências artificiais, os modelos generativos, geram coisas maravilhosas. A IA pode trazer muito benefícios, mas também apresenta erros. A área da saúde não permite erros”, afirmou. Julia reforçou a importância da regulação para mitigar riscos e destacou a publicação do PIC/S Anexo 22 como um marco inicial. “Será o primeiro passo para a regulação de IA no âmbito de aplicações GMP-críticas de forma harmonizada globalmente”, disse.
Pesquisa Sindusfarma
Na sequência, Valdênio Araújo, analista de Produtividade e Inovação da ABDI (Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial), apresentou os avanços da MetaIndústria, considerada a maior plataforma nacional de adoção de inteligência artificial para a indústria. Ele abordou a evolução do tema nos últimos anos e ressaltou o papel estratégico da IA para aumentar a competitividade do setor produtivo brasileiro.
Durante o evento, também foram apresentados, em primeira mão, os resultados de uma pesquisa realizada pelo Sindusfarma sobre o interesse e as prioridades para o uso de inteligência artificial nas operações industriais.
O estudo, realizado com 71 empresas entre 12 e 28 de novembro de 2025, revelou dados extremamente relevantes. Entre eles, que 46% das participantes ainda não possuem iniciativas relacionadas à IA. Além disso, apontou que o foco atual das empresas está em qualidade e redução de desvios, enquanto 27% ainda não definiram objetivos para os próximos 12 ou 24 meses.
Segundo Fábio Moreira, consultor do Sindusfarma, o levantamento buscou mapear o estágio de maturidade do setor e orientar ações futuras. “O objetivo foi entender o nível de adoção da inteligência artificial nas operações industriais, identificar prioridades e gargalos, além de orientar o desenvolvimento de capacitações técnicas e gerenciais mais aderentes às necessidades das empresas”, explicou.
Fábio também trouxe uma reflexão direta sobre o momento atual da indústria. “A questão não é perder o bonde. Nós já perdemos o bonde. A questão é o quão longe eu quero ficar do bonde”, afirmou.
Educação e capacitação
Ainda durante o encontro, Jairo Oliveira, do programa MetaIndústria da SPI/ABDI, abordou o impacto da inteligência artificial nas operações industriais farmacêuticas, destacando oportunidades de ganho de eficiência e inovação.
Já o professor Roberto Marx, doutor do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP, enfatizou o papel da educação e da capacitação profissional como pilares essenciais para a adoção bem-sucedida da tecnologia.
A mediação do evento ficou por conta da gerente técnico-regulatória e de Inovação do Sindusfarma, Liliane Saad. O encontro evidenciou que, embora a inteligência artificial já esteja no radar da indústria farmacêutica, ainda há um caminho significativo a ser percorrido para sua plena integração às operações. Entre avanços e desafios, o setor se movimenta para equilibrar inovação, segurança e conformidade regulatória em um cenário cada vez mais digital.