Biossimilares: da confiança ao acesso

Faz-se necessária uma política para os biossimilares semelhante à que transformou os medicamentos genéricos em um patrimônio da sociedade brasileira

Os medicamentos biológicos transformaram o tratamento de doenças graves e complexas, mas seu custo ainda limita o acesso de milhões de pacientes.

Ao publicar a da Nota Técnica nº 60/2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reconhece, baseada em evidências científicas acumuladas, que a alternância entre medicamentos biológicos comparadores e seus biossimilares pode ser realizada com segurança e eficácia. Trata-se de um passo decisivo para aproximar os avanços da biotecnologia a quem mais importa: o paciente.

A experiência brasileira com os medicamentos genéricos mostrou que o rigor regulatório somente se converte em acesso quando também se transforma em confiança entre profissionais de saúde, gestores e pacientes. Com os biossimilares, o avanço será e é semelhante, embora sua implementação exija cuidados próprios.

A atualização promovida pela Anvisa remove uma importante barreira de confiança e aproxima o reconhecimento científico da comparabilidade das decisões clínicas e assistenciais.

Elaborada pela Gerência-Geral de Produtos Biológicos (GGBIO), a Nota Técnica consolida evidências científicas e experiências internacionais que confirmam o que nós, da PróGenéricos e Biossimilares, temos defendido:  a segurança e a eficácia da alternância entre o medicamento biológico comparador e seus biossimilares, bem como entre biossimilares que compartilhem o mesmo comparador.

O nosso desafio agora é transformar esta ciência em confiança assistencial e acesso efetivo. Faz-se necessária uma política para os biossimilares semelhante à que transformou os medicamentos genéricos em um patrimônio da sociedade brasileira.

Este novo entendimento pode produzir efeitos relevantes sobre a sustentabilidade do SUS e da saúde suplementar. O Brasil já conta com mais de 80 registros da Agência Reguladora e do mercado, assim como o potencial categoria.

À medida que profissionais de saúde, gestores e pacientes passam a compreender e confiar na alternância responsável, a barreira invisível do mercado se dissipa. que somam registros estratégicos na Anvisa, deixam de ser alternativas restritas e assumem o papel de protagonistas no abastecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e da saúde suplementar.

Estamos falando de uma linha de frente atuando exatamente onde o custo de tratamento costuma ser uma barreira proibitiva para as famílias brasileiras e uma pressão crescente sobre os orçamentos públicos e privados de saúde.  Entre os produtos já registrados pelas associadas estão anticorpos monoclonais utilizados no tratamento de doenças oncológicas, autoimunes e inflamatórias crônicas, como adalimumabe, rituximabe, trastuzumabe e tocilizumabe.

Ao lado deles, o etanercepte (indicado para inflamações articulares agudas), a enoxaparina sódica (anticoagulante vital no manejo hospitalar) e os bioestimuladores hematopoiéticos filgrastim e pegfilgrastim (indispensáveis ​​para proteger pacientes oncológicos sob terapia contra infecções graves) aguardam uma maior capilaridade no mercado.

Essa ampliação da concorrência já se reflete em preços: os biossimilares apresentam, em média, um desconto de 30,20%.

Biossimilares: conheça os mais vendidos*

Vale destacar o ranking das moléculas biossimilares mais vendidas em unidades no Brasil para ilustrar as áreas com maior potencial de expansão:

1ª insulina glargina (Diabetes/Endocrinologia),

2ª Enoxaparina Sódica (Anticoagulante/Cardiovascular),

3ª Somatropina (Hormônio do Crescimento),

4ª Rituximabe (Anticorpo Monoclonal / Oncologia e Autoimune),

5ª Infliximabe (Imunobiológico / Doenças Inflamatórias Crônicas),

6ª Filgrastima (Bioestimulador Hematopoiético),

7ª Adalimumabe (Anticorpo Monoclonal / Artrite, Crohn e Psoríase),

8ª Trastuzumabe (Anticorpo Monoclonal / Câncer de Mama e Gástrico),

9ª Etanercepte (Antineoplásico / Imunobiológico),

10ª Pegfilgrastima (Bioestimulador Hematopoiético de Ação Prolongada).

* Fonte: base nos últimos 12 meses encerrados em maio de 2026, da IQVIA.

Projeções positivas

Embora o mercado brasileiro de biossimilares tenha avançado, seu potencial ainda é altíssimo. Por isso, o reconhecimento científico da intercambialidade precisa ser convertido em ações educativas, protocolos assistenciais e políticas públicas capazes de promover sua adoção responsável.

As recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e o próprio entendimento da Anvisa apontam os elementos necessários para essa implementação:  comunicação clara com o paciente, capacitação das equipes, documentação das alternâncias, identificação do produto e do lote, rastreabilidade e farmacovigilância.

A Nota Técnica nº 60/2026 representa mais do que um avanço regulatório para o setor: seu significado mais importante é social. Ao sedimentarmos que os biossimilares e os medicamentos de referência são plenamente intercambiáveis, a ciência nos abre as portas para uma saúde mais inclusiva ao remover a barreira da desconfiança. O desafio agora é transformar esse reconhecimento em política de acesso.

Assim, os biossimilares cumprirão a sua verdadeira finalidade: ampliar a concorrência e fazer com que tratamentos biológicos de alta complexidade cheguem, com segurança e sustentabilidade, a um número cada vez maior de brasileiros.

* Artigo escrito por Tiago de Moraes Vicente, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (PróGenéricos)

Foto: Divulgação

Fonte: https://guiadafarmacia.com.br/biossimilares-da-confianca-ao-acesso/

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