A estimativa é que o mercado farmacêutico chinês apresente um crescimento moderado nos próximos anos, com novos lançamentos e medicamentos inovadores como principais impulsionadores desse crescimento
Velocidade na execução de projetos, disciplina operacional, foco no cliente e tecnologia integrada aos negócios. Essas são algumas das características do modelo chinês de gestão que chamaram a atenção de empresários e executivos brasileiros do setor farmacêutico durante uma viagem técnica organizada pela Farmarcas, associação que reúne 11 redes de farmácias, para a China.
O Guia da Farmácia acompanhou o evento no qual a diretoria da Farmarcas, gestores de farmácias associadas, representantes de entidades e de indústrias como Apsen, Haleon, Catarinense, Prati-Donaduzzi, Danone e Cimed que participaram da viagem, compartilharam suas impressões e aprendizados.
Para os participantes, a China se consolidou como um dos mercados mais inovadores do mundo, com destaque para tecnologia, digitalização e experiência do consumidor.
Salto para virar uma potência
O avanço da China nas últimas décadas transformou o país, antes marcado pela pobreza, em uma das maiores potências econômicas globais. O Produto Interno Bruto (PIB) chinês, por exemplo, saltou de US$ 868 bilhões, em 1996, para cerca de US$ 20,8 trilhões em 2025.
Esse avanço é resultado de um modelo econômico próprio, que combina elementos do socialismo e do capitalismo, com forte participação do Estado na economia. O governo chinês atua tanto na definição das diretrizes estratégicas quanto como parceiro/investidor de empresas em diversos setores.
Na década de 1990, uma das principais estratégias do país era se consolidar como a “fábrica do mundo”. Com isso, muitas multinacionais transferiram a produção para a China em busca de escala e custos mais baixos. Na época, o país também ganhou fama por copiar produtos.
Mas esse cenário mudou e o gigante asiático passou a investir fortemente em inovação, pesquisa e desenvolvimento, com incentivos fiscais e financeiros do governo para acelerar novos negócios e testar tecnologias.
Empresas como Shein, Shopee, TikTok foram citadas como exemplos de companhias que controlam a sua cadeia de valor, passando da produção ao relacionamento com o consumidor, e ampliam sua presença global.
“A China quer passar do ‘Made in China’ para o “Create in China”, disse o empresário e consultor especialista no mercado chinês Ricardo Gracia, durante o evento. Segundo ele, o país já tem metas estratégicas traçadas até 2049 e busca liderar o desenvolvimento de tecnologias de ponta em diferentes segmentos.
Não à toa, robôs humanoides, entregas por drones, inteligência artificial aplicada aos processos foram destaques durante a viagem.
Para o presidente da Febrafar e fundador da Farmarcas, Edison Tamascia, um dos pontos que mais chamou atenção foi o grau de integração da tecnologia ao cotidiano das empresas.
“As empresas que visitamos têm estruturas semelhantes em termos de inovação, tecnologia e uso de inteligência artificial, já incorporados à rotina das organizações”, afirma Tamascia.
“É preciso observar e estar próximo da China, não adianta se isolar. A China representa, ao mesmo tempo, inspiração, preocupação e oportunidade”, disse Gracia, completando que a digitalização será um dos grandes motores de crescimento do gigante asiático.
Apesar dos avanços tecnológicos e econômicos, Gracia comentou que a China ainda apresenta muitos contrastes, com os grandes centros urbanos com alto nível de desenvolvimento, enquanto as áreas rurais ainda enfrentam desafios sociais e econômicos.
Inspiração para os negócios
Durante a missão, o grupo brasileiro visitou indústrias como BYD, distribuidores, redes de farmácias e grandes ecossistemas digitais como JD e Tencent. A experiência revelou práticas e tendências que podem servir de inspiração para os negócios no Brasil.
Entre os principais destaques estão:
- a forma como a China consegue integrar inovação e tecnologia com sua cultura milenar, inclusive a tradicional medicina chinesa.
- respeito à hierarquia, disciplina e valorização da liderança seguem muito presentes no ambiente corporativo e contribuem para a velocidade na execução dos projetos e na tomada de decisões.
- agilidade para identificar oportunidades e fechar negócios.
- tecnologia usada como meio e não como fim, ou seja, como ferramenta estratégica para solucionar problemas e aumentar a eficiência das operações.
- forte investimento em inovação, pesquisa e desenvolvimento com apoio do governo, com grande quantidade de patentes registradas pelo país.
- es empresas trabalham de forma verticalizada e utilizam dados para compreender o comportamento do shopper;
- embora a tecnologia esteja muito presente, o varejo físico chinês mantém sua força, impulsionado, justamente, pela integração com o digital. É comum ver ações de live shopping acontecendo dentro das lojas, conectando experiência presencial e vendas online em tempo real.
E como funciona o setor farma na China?
A gigante asiático é o segundo maior mercado farmacêutico do mundo (EUA é o primeiro), com uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 6,8% até 2029, segundo dados da IQVIA.
A estimativa é que o mercado farmacêutico chinês apresente um crescimento moderado nos próximos anos, com novos lançamentos e medicamentos inovadores como principais impulsionadores desse crescimento.
Além de ser um dos principais fornecedores da matéria-prima para a indústria farmacêutica global, a China tem posição estratégica em inovação, pesquisa e desenvolvimento de medicamentos, inclusive de genéricos.
Outro destaque é a atuação de gigantes como JD, Tencent, Alibaba e Didi, ecossistemas de negócios com operação verticalizada em diferentes setores, como pagamentos e apps de comunicação, que cada vez mais avançam na área da saúde, com telemedicina e farmácia por exemplo.
A jornada do paciente também tende a ser mais integrada, com o uso de inteligência artificial, telemedicina, atendimento presencial, dispensação e entrega rápida de medicamentos, em um modelo verticalizado e digitalizado de saúde.
Farmácias na China: aposta na conveniência
O diretor de comunicação da Farmarcas, Ângelo Vieira , contou um pouco sobre como funcionam as farmácias. “Na China, não vemos farmácias em cada esquina como acontece no Brasil”, disse.
Segundo ele, os hospitais também fazem o fornecimento de medicamentos para a população, e é lá que muitas pessoas costumam buscar tratamento.
“Grande parte do consumo de medicamentos está integrado à rotina de atendimento dos hospitais, não apenas para pacientes internados ou em situações de urgência”.
Embora os hospitais sejam o principal canal de distribuição de medicamentos, o varejo farmacêutico vem ampliando sua participação nos últimos anos. Segundo dados da IQVIA, as farmácias já respondem por 30,8% do mercado, enquanto os hospitais concentram 59,9%.
O país conta, atualmente, com cerca de 600 mil farmácias, e, diferentemente do que ocorre no Brasil, o número de pontos de venda físicos segue em expansão.
Segundo a IQVIA, ainda existe um grande número de farmácias independentes, embora as grandes empresas estejam ampliando participação por meio de aquisições.
As independentes representam 43% do mercado chinês, enquanto as grandes cadeias respondem por 57%.
De acordo com Vieira, as farmácias chinesas possuem um perfil mais próximo ao de lojas de conveniência, com forte presença de produtos de consumo e bem-estar, como bebidas, alimentos, higiene e beleza, inclusive com marcas conhecidas internacionalmente. O mix de nutracêuticos, produtos funcionais e diferentes tipos de chás também tem espaço garantido nas lojas.
O grupo brasileiro teve a oportunidade de visitar, na China, a sede administrativa e operacional de uma rede com 17 mil farmácias, que também atua como distribuidora. No mesmo local, uma farmácia-modelo com medicamentos convencionais e produtos da medicina tradicional chinesa.
Em Hong Kong, o grupo brasileiro conheceu uma rede com farmácias que opera com cerca de 45 mil SKUs. “Tudo com exposição primorosa, com requintes de qualidade da exposição, sinalização, iluminação da loja”, contou Vieira.
Para ele, foi interessante observar o choque cultural, comparar os pontos positivos e negativos, além dos desafios de cada mercado. “A experiência também mostrou que o Brasil é uma grande terra de oportunidades. Muitas vezes, só precisamos colocar em prática as ferramentas e tecnologias que já temos disponíveis com mais efetividade”, concluiu Vieira.
Fotos: Farmarcas
Fonte: https://guiadafarmacia.com.br/as-licoes-do-mercado-chines-para-o-setor-farmaceutico-brasileiro/