Dados indicam que as referências de IA para sites de varejo e e-commerce cresceram 203% na comparação anual, embora ainda representem apenas cerca de 0,4% do total de visitas ao comércio eletrônico
A inteligência artificial está deixando de ser uma promessa distante para se tornar uma camada concreta de distribuição no comércio eletrônico global, e os reflexos dessa mudança já chegam ao Brasil.
Um relatório do BTG Pactual, divulgado em 22 de setembro de 2026, analisa o avanço do chamado agentic commerce, modelo no qual agentes de IA pesquisam, comparam e executam compras em nome do consumidor, e aponta implicações relevantes para o varejo como um todo, incluindo o setor farmacêutico.
O que está mudando no e-commerce
O documento do BTG Pactual descreve uma transição do modelo tradicional de busca-e-clique para um novo padrão que pode ser resumido como perguntar-e-comprar. No fluxo convencional, o consumidor acessa uma plataforma, pesquisa produtos, compara preços e conclui a compra. Com os agentes de IA, esse processo pode ser condensado em um único comando: o agente decide quais produtos considerar, quais especificações priorizar, qual varejista recebe o pedido e, em alguns casos, onde a transação será concluída.
O relatório aponta que esse movimento já é mensurável. Dados da empresa de análise de audiência Similarweb, citados no documento, indicam que as referências de IA para sites de varejo e e-commerce cresceram 203% na comparação anual, embora ainda representem apenas cerca de 0,4% do total de visitas ao comércio eletrônico. No segmento de marketplaces especificamente, as referências geradas por IA somaram uma média de 46,8 milhões de visitas por mês globalmente entre junho de 2025 e maio de 2026, alta de 237% na comparação anual.
Intenção de compra mais alta
Além do crescimento em volume, o relatório destaca que o tráfego gerado por IA apresenta qualidade diferenciada em relação ao tráfego convencional. Segundo dados da empresa Adobe, citados pelo BTG Pactual, o tráfego de IA para sites de varejo nos Estados Unidos cresceu 1.324% em relação a outubro de 2024, considerando o mês de maio de 2026. Além disso, os visitantes que chegam por meio de IA apresentaram taxa de conversão 54% superior, permaneceram 53% mais tempo nas páginas, visualizaram 23% mais produtos e geraram 53% mais valor por visita do que os visitantes oriundos de outros canais.
O documento também cita estimativa da agência de notícias Reuters segundo a qual as referências de IA poderão movimentar cerca de 8 bilhões de dólares em gastos no varejo ao longo de 2026. Além disso, 41% dos consumidores norte-americanos ouvidos em pesquisa já haviam utilizado IA generativa para compras online até junho deste ano.
O cenário no Brasil
O relatório traz dados específicos sobre o Brasil. Segundo a Similarweb, citada pelo BTG Pactual, o Mercado Livre é o maior receptor de tráfego de e-commerce gerado por IA no país, à frente de OLX, Amazon Brasil, Shopee e Magazine Luiza. As referências de IA para o e-commerce brasileiro cresceram aproximadamente 374% ao longo de 2025.
Em relação às plataformas de IA que mais geram esse tráfego, o relatório aponta o ChatGPT como fonte dominante. No caso da Shopee Brasil, por exemplo, o site recebeu aproximadamente 1,2 milhão de visitas referenciadas por IA em julho de 2026: 83,9% originadas pelo ChatGPT, 12,5% pelo Gemini e 3,1% pelo Perplexity.
A disputa pelas interfaces do consumidor
O BTG Pactual descreve uma tensão estratégica crescente entre as grandes plataformas globais. A Amazon bloqueou o agente Muse, lançado recentemente pela Meta, de realizar compras em seu ambiente, após a Meta recusar o pedido da Amazon de remover o site das fontes de consulta do agente. A Amazon adotou posição semelhante em relação ao Perplexity e teria restringido o acesso de compras pelo ChatGPT, Gemini e outros agentes de terceiros.
O relatório explica que a resistência tem motivação econômica clara: se os agentes contornam o processo nativo de descoberta do Amazon, podem igualmente contornar os anúncios patrocinados e enfraquecer a capacidade da plataforma de monetizar a intenção de compra do consumidor por meio de publicidade.
No caso do MercadoLibre, o documento descreve dois movimentos em andamento: aprimoramento da busca no marketplace com recursos de IA e um assistente de compras com IA em fase de testes A/B. O relatório cita ainda que a empresa investiu aproximadamente 80 milhões de dólares adicionais em IA no segundo trimestre de 2026, com o uso do orquestrador de anúncios com IA crescendo 66% e a receita de publicidade avançando 73% na comparação anual.
O que o varejo farmacêutico pode observar
O relatório do BTG Pactual é voltado ao setor de varejo e bens de consumo em sentido amplo, sem abordar diretamente o segmento farmacêutico. No entanto, o documento traça um cenário que afeta qualquer categoria presente no comércio eletrônico, incluindo produtos de saúde, higiene e beleza, categorias relevantes para farmácias e drogarias.
A análise aponta que os agentes de IA tendem a favorecer plataformas com amplo sortimento, marcas reconhecidas, preços competitivos e logística confiável. Para farmácias e redes do setor que atuam ou pretendem atuar no canal digital, o relatório sinaliza que a presença das marcas e produtos nas fontes consultadas pelos agentes de IA pode se tornar um fator cada vez mais relevante na jornada de compra do consumidor. O documento menciona, nesse contexto, a importância do que chama de Generative Engine Optimization (GEO), a otimização de conteúdo para que os algoritmos de IA consigam identificar e recomendar os atributos dos produtos com precisão.
O BTG Pactual conclui que, no curto prazo, o movimento parece mais aditivo do que disruptivo para as plataformas incumbentes, pois a IA envia tráfego de alta intenção para os grandes marketplaces. No longo prazo, porém, a posse da interface de compras por IA e as regras que definem se agentes de terceiros podem acessar as plataformas consolidadas tendem a se tornar uma das questões estratégicas mais relevantes para o e-commerce global nos próximos anos.
Fonte: https://guiadafarmacia.com.br/ia-redefine-compras-no-e-commerce/
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