Distribuição farmacêutica entra em nova fase no Brasil

Avanço de terapias complexas, pulverização da demanda e pressão sobre custos elevam as exigências para distribuidores de medicamentos no país

O mercado brasileiro de distribuição de medicamentos atravessa uma transformação marcada pela maior complexidade dos produtos, pela pulverização dos pedidos e pela necessidade de ampliar a eficiência operacional.

Enquanto o avanço de medicamentos biológicos, imunobiológicos, terapias gênicas e tratamentos personalizados amplia as exigências sobre a cadeia especializada, o varejo demanda capilaridade, frequência de entregas, variedade de produtos e equilíbrio financeiro.

Para Paulo Maia, presidente executivo da Abradimex, a evolução das terapias modificou a dinâmica da distribuição especializada. O portfólio da indústria está cada vez mais direcionado a grupos específicos de pacientes, resultando em pedidos menores, maior frequência de entrega e atendimento a hospitais, clínicas, centros de infusão e serviços especializados.

“O desafio não está apenas no volume distribuído, mas no alto valor agregado, na complexidade clínica e na necessidade de garantir a continuidade do tratamento”, comenta.

No abastecimento do varejo, Vinicius DallOvo, diretor executivo da Abradilan, destaca o crescimento do setor e o avanço dos medicamentos GLP-1, que vêm impulsionando categorias relacionadas, como agulhas, suplementação, alimentos e dermocosméticos. “Ao mesmo tempo, frete, crédito concedido ao varejo e mudanças decorrentes da reforma tributária aumentam a pressão sobre a operação”, reforça.

Atualmente a Abradilan conta com 149 distribuidores associados e mais de 1.6 bilhão de unidades de medicamentos entregues. Dados de 2025 apontam que quase metade (48%) está concentrada no Nordeste. Nas demais regiões, o setor mantém atuação consistente e homogênea.

Capilaridade exige eficiência

A abrangência da distribuição impõe desafios logísticos às empresas que abastecem o varejo. Segundo DallOvo, a cobertura alcança a totalidade dos municípios brasileiros e mais de 85% das farmácias do país, exigindo uma estrutura capaz de conciliar prazo, variedade e custos.

“Os maiores desafios estão na gestão eficiente de estoque para evitar rupturas e manter um mix amplo, além do equilíbrio do crédito concedido ao varejo e do atendimento às exigências regulatórias e sanitárias de armazenagem e transporte em âmbito nacional”, explica DallOvo.

As distribuidoras regionais também vêm ajustando a operação à demanda por pedidos fracionados e entregas frequentes, adequando o sortimento às necessidades dos clientes e reduzindo o impacto do capital imobilizado no varejo.

Produtos especiais ampliam as exigências

Na distribuição de medicamentos de maior complexidade, cadeia fria, controle de temperatura, armazenagem especializada, rastreabilidade e segurança são elementos essenciais. Maia explica que o controle deve ocorrer do centro de distribuição até a entrega ao serviço de saúde.

Uma excursão de temperatura pode comprometer a qualidade do produto e provocar perdas expressivas. Por isso, são necessários equipamentos de monitoramento, geradores, sistemas de contingência, veículos adequados e processos capazes de registrar a trajetória do medicamento.

“As distribuidoras também devem estar preparadas para lidar com roubos e desvios, variações cambiais, prazos aduaneiros, dependência de fornecedores internacionais e necessidade de estoques de segurança”, pontua o executivo da Abradimex.

A pulverização das entregas também eleva o custo por operação, com maior número de rotas e pontos de atendimento. Nesse contexto, entram investimentos em calibração, validação de processos, embalagens qualificadas, seguros, treinamento, gerenciamento de riscos e segurança logística.

Maia entende os modelos comerciais e de remuneração precisam considerar a complexidade desse serviço, preservando a disponibilidade e a continuidade do cuidado.

Já DallOvo destaca outra frente de oportunidade. “A estruturação logística para produtos da cadeia fria e o fortalecimento do distribuidor regional como parceiro de segmentos como suplementação, nutrição e autocuidado deveriam estar no radar das empresas”, sinaliza.

 

Tecnologia ganha peso na gestão

A demanda por terapias mais específicas e pedidos menores aumenta a necessidade de precisão na gestão de estoques. Entre os investimentos citados por Maia estão automação, inteligência de dados, inteligência artificial, Internet das Coisas, monitoramento de temperatura em tempo real e sistemas avançados de gestão.

A integração dessas ferramentas permite acompanhar lote, validade, localização, temperatura e histórico de movimentação, além de apoiar a previsão de demanda e reduzir perdas por vencimento. “Essa visibilidade ajuda a reduzir perdas por vencimento, evitar rupturas e diminuir movimentações desnecessárias”, destaca.

No mercado atendido pelo varejo, DallOvo também identifica potencial no uso de inteligência artificial para previsão de demanda e otimização de estoque, além da automação do controle de acordos comerciais.

Integração abre espaço para novos modelos

A evolução do portfólio das indústrias amplia a necessidade de conexão entre indústria, distribuidores e serviços de saúde. Segundo Maia, há espaço para modelos baseados em planejamento conjunto de demanda, estoques regionalizados, entregas programadas e monitoramento em tempo real.

“O futuro passa por uma cadeia mais conectada, digital, eficiente e colaborativa. O uso estratégico de tecnologia e dados pode ampliar a previsibilidade, reduzir desperdícios, fortalecer a segurança e contribuir para o acesso da população às novas terapias”, reitera.

Nesse cenário, o distribuidor especializado concentra conhecimento técnico, infraestrutura e capacidade operacional para conectar os produtos desenvolvidos pela indústria às necessidades dos serviços de saúde.

“Quanto mais personalizada é a terapia, maior é a necessidade de precisão operacional. O medicamento precisa chegar ao local correto, no momento adequado e nas condições exigidas”, alerta Maia.

Fonte: https://panoramafarmaceutico.com.br/distribuicao-farmaceutica-entra-em-nova-fase-no-brasil/

Foto: iStock

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