A mercantilização da saúde e os riscos da venda direta de medicamentos

Eles não são, e jamais devem ser tratados como uma simples mercadoria de consumo.

O setor farmacêutico brasileiro encontra-se em uma encruzilhada perigosa, pressionado por interesses econômicos que ameaçam desestruturar o modelo de assistência à saúde e a segurança sanitária da população. Recentemente, a indústria farmacêutica tem ensaiado movimentos de aproximação direta ao consumidor, contornando o varejo tradicional e a figura essencial do farmacêutico.

Um exemplo emblemático dessa tendência ocorreu no México, onde a Novo Nordisk, fabricante de medicamentos da classe GLP-1 como o Ozempic e o Wegovy, inaugurou uma loja oficial dentro da plataforma de comércio eletrônico Mercado Livre para a comercialização de medicamentos sob prescrição.

Este movimento, embora celebrado por alguns como uma inovação logística, esconde armadilhas profundas que merecem uma análise crítica e rigorosa por parte das autoridades e profissionais de saúde.

A iniciativa mexicana demonstra uma flexibilidade regulatória que, se importada para o Brasil sem as devidas adaptações, representaria um retrocesso incomensurável. Embora a proposta seja apresentada sob a roupagem da conveniência e da modernidade digital, ela oculta fragilidades profundas. O medicamento não é, e jamais deve ser tratado como, uma simples mercadoria de consumo.

Ele é um bem de saúde essencial que exige controle rigoroso, rastreabilidade e, sobretudo, orientação técnica especializada. A venda direta por grandes corporações ou marketplaces despersonaliza o ato da dispensação, reduzindo-o a uma mera transação logística e comercial, onde o lucro se sobrepõe ao cuidado e à segurança do paciente.

Venda direta de medicamentos: riscos à população

A segurança da população é o primeiro e mais grave risco inerente a esse modelo. A ausência do profissional farmacêutico no momento da entrega do medicamento elimina a última barreira de proteção contra erros de prescrição, interações medicamentosas e uso irracional.

A dispensação farmacêutica não se resume a entregar uma caixa; trata-se de um ato clínico que envolve a validação da receita, a orientação sobre posologia, o alerta sobre efeitos adversos e o acompanhamento terapêutico. Ao delegar essa responsabilidade a plataformas de e-commerce, potencializa-se o risco de automedicação, intoxicações e agravamento de quadros clínicos, transferindo os custos e as consequências para o já sobrecarregado sistema de saúde pública brasileiro.

No contexto brasileiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantém diretrizes rigorosas que exigem a presença do farmacêutico e a comercialização exclusiva por farmácias e drogarias licenciadas. Contudo, a recente aprovação de leis que flexibilizam a venda de medicamentos em outros estabelecimentos, como supermercados, acende um alerta vermelho.

Tais medidas banalizam o consumo de fármacos, estimulando a compra por impulso em ambientes tradicionalmente voltados para ofertas e promoções. Essa lógica mercadológica contraria frontalmente as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o uso racional de medicamentos e coloca a saúde da população em segundo plano, priorizando o aumento do volume de vendas em detrimento da segurança sanitária.

Além dos inegáveis prejuízos à saúde pública, a venda direta pela indústria e a flexibilização dos canais de distribuição impõem uma ameaça severa à empregabilidade e à economia do setor varejista. O Brasil possui uma extensa e capilarizada rede de farmácias que desempenha um papel fundamental na assistência primária à saúde, especialmente em regiões mais afastadas e periféricas.

Desafios para as farmácias

A concorrência desleal com gigantes do e-commerce e grandes indústrias pode levar ao fechamento de milhares de pequenas e médias farmácias. Isso resultaria não apenas na desassistência de populações vulneráveis, mas também em desemprego em massa para farmacêuticos, balconistas e demais profissionais que sustentam o setor varejista.

A desvalorização da profissão farmacêutica é uma consequência direta e alarmante dessa mercantilização. O farmacêutico, um profissional de saúde altamente capacitado e indispensável para o uso seguro de medicamentos, corre o risco de ser substituído por algoritmos de validação de receitas e sistemas logísticos de entrega automatizados.

Essa substituição tecnológica, por mais avançada que seja, é incapaz de prover o cuidado humanizado, o discernimento clínico e a empatia necessários para o manejo de pacientes com condições complexas, como diabetes, obesidade e doenças cardiovasculares, que exigem um acompanhamento contínuo e personalizado.

A própria experiência da Novo Nordisk no Brasil, com testes de venda direta através de parcerias logísticas e plataformas digitais, mostra que o mercado nacional é visto como um laboratório para essas novas práticas.

Embora existam tentativas de incluir suporte multidisciplinar online nesses programas, a distância física e a impessoalidade da tela não substituem a relação de confiança e proximidade estabelecida no balcão da farmácia. A farmácia comunitária é, muitas vezes, a primeira porta de entrada do cidadão no sistema de saúde, e enfraquecer essa estrutura é enfraquecer a própria saúde pública do país.

Conclusão

Em suma, a importação de modelos de venda direta, como o observado no México, representa uma ameaça sistêmica ao Brasil. A conveniência digital não pode se sobrepor à segurança do paciente. É imperativo que as autoridades sanitárias, os conselhos de classe e a sociedade civil organizada se mobilizem para defender o modelo de assistência farmacêutica vigente.

A presença do farmacêutico na dispensação é inegociável; ela é a garantia de que o medicamento cumprirá o seu propósito terapêutico, sem colocar em risco a vida daqueles que buscam a cura. A saúde não é uma commodity, e o acesso a medicamentos deve ser pautado pela responsabilidade técnica e pelo cuidado integral ao paciente.

*Artigo escrito pelo Professor Doutor Marcelo Polacow Bisson

Fonte: https://guiadafarmacia.com.br/a-mercantilizacao-da-saude-e-os-riscos-da-venda-direta-de-medicamentos/

Foto: iStock

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