Farmácias perdem até R$ 1,4 bi por ano com medicamentos vencidos; veja soluções

Por derivação dos números da pesquisa, o vencimento responderia por cerca de 48% de toda a perda total do segmento, não apenas das quebras operacionais

O vencimento de medicamentos é o principal fator de perda operacional no varejo farmacêutico brasileiro. Dados da Pesquisa Abrappe 2025, realizada pela Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe), mostram que 78,98% das quebras operacionais registradas em farmácias e drogarias estão relacionadas à validade de produtos. O número coloca a gestão de vencimento no centro da estratégia de prevenção de perdas do setor.

Em entrevista ao Guia da Farmácia, o presidente da Abrappe, Carlos Eduardo Santos, detalhou os dados da pesquisa, os impactos financeiros do problema e os caminhos para uma gestão mais eficaz.

Perdas por vencimento em números

O setor farmacêutico apresentou índice de perda total de 1,24% do faturamento em 2025, praticamente estável em relação aos 1,25% registrados em 2024 e abaixo da média do varejo brasileiro, de 1,65%. Dentro dessa composição, as quebras operacionais respondem por 0,75 ponto percentual, e o vencimento de medicamentos concentra a parcela majoritária desse resultado.

“Quando quase 8 em cada 10 reais de quebra operacional estão relacionados ao vencimento, validade deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a ser uma questão estratégica de rentabilidade”, afirma o presidente da Abrappe, Carlos Eduardo Santos.

Com base nos dados da pesquisa e no faturamento de aproximadamente R$ 241,6 bilhões registrado pelo varejo farmacêutico em 2025, segundo levantamento da consultoria IQVIA encomendado pela Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Santos estima que as perdas por vencimento possam representar uma ordem de grandeza de R$ 1,4 bilhão ao ano. “Esse valor é uma estimativa estatística, obtida pela extrapolação dos índices da pesquisa para o faturamento total do setor, e não um valor diretamente auditado pela Abrappe”, ressalva o executivo.

Por derivação dos números da pesquisa, o vencimento responderia por cerca de 48% de toda a perda total do segmento, não apenas das quebras operacionais.

As causas do problema

A Pesquisa Abrappe mensura a dimensão do problema, mas a explicação de suas causas envolve análise técnica de gestão. Santos aponta um conjunto de fatores recorrentes: compras acima da demanda real, erros de previsão, excesso de cobertura de estoque, baixa velocidade de venda, falhas na gestão do sortimento, ausência de controle sistemático de lote e validade, erros na rotação de estoque e baixa integração entre as áreas de compras, supply chain, operação e prevenção de perdas.

Há também um componente frequentemente subestimado pelas farmácias: o momento da decisão de compra. “Muitas vezes, o produto não vence na loja. Ele começa a vencer na decisão de compra”, diz Santos. Segundo o executivo, condições comerciais atrativas podem se transformar em prejuízo se o volume adquirido ultrapassar a capacidade de venda dentro do prazo de validade.

Gestão preventiva e regulamentação

A prevenção de perdas por vencimento de medicamentos pressupõe um ciclo de gestão estruturado. Santos organiza as etapas em sete frentes: planejamento, compra, recebimento, armazenamento, monitoramento, ação e mensuração.

Na prática, isso significa trabalhar com janelas preventivas de validade ajustadas ao giro de cada produto, cruzando data de vencimento, estoque disponível, velocidade de venda e cobertura. “Um produto que vence daqui a seis meses e possui estoque para apenas 30 dias não representa o mesmo risco de outro que também vence daqui a seis meses, mas possui cobertura para dez meses”, exemplifica.

A gestão preventiva também tem respaldo regulatório. A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 44/2009, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), determina que a política para produtos próximos ao vencimento esteja prevista nos procedimentos internos da farmácia, incluindo o Manual de Boas Práticas e o Procedimento Operacional Padrão (POP). A norma exige ainda a verificação de validade no momento da dispensação e estabelece regras específicas para a destinação de produtos próximos do vencimento³.

O papel da tecnologia

A tecnologia tem função central na transformação da gestão de vencimento de reativa em preditiva. Segundo Santos, sistemas de gestão com rastreamento de lote, validade, estoque, cobertura e velocidade de venda permitem gerar alertas antes que a perda ocorra. Ferramentas analíticas e de inteligência artificial vão além: em vez de informar apenas que um produto vence em determinado prazo, podem indicar quantas unidades correm risco real de não serem vendidas dentro do prazo, dado o ritmo atual de saída.

“O objetivo é sair da gestão do produto vencido para a gestão do produto com risco de vencer”, define o presidente da Abrappe. Tecnologias como RFID e o Código 2D da GS1 também são citadas pelo executivo como recursos que ampliam o controle e a rastreabilidade, apoiando decisões preventivas com mais precisão.

Indicadores para acompanhar

Santos recomenda que a farmácia acompanhe um conjunto abrangente de indicadores, indo além da simples apuração do que já venceu. Entre os principais estão: perda total sobre vendas; quebra operacional sobre vendas; perda por vencimento sobre vendas; vencimento sobre quebra operacional; valor financeiro das perdas por vencimento; estoque próximo e em risco de vencimento; cobertura de estoque; giro; aging; SKUs sem venda ou de baixo giro; transferências preventivas entre lojas; recuperação por devoluções quando aplicável; e reincidência de SKUs com vencimento.

A pesquisa traz dois indicadores complementares que ampliam a visão sobre o estoque: acurácia quantitativa, que chegou a 97,39% nas farmácias pesquisadas, e ruptura, registrada em 11,17%, sendo 7,27% comercial e 3,90% operacional. A combinação revela um paradoxo frequente no setor: uma mesma farmácia pode perder produtos por vencimento e, simultaneamente, perder vendas por falta de produto. “Boa gestão de estoque não significa necessariamente reduzir estoque. Significa ter o produto correto, na quantidade correta, na loja correta e no momento correto”, conclui Santos.

Checklist de boas práticas com medicamentos

A seguir, Santos apresenta as principais boas práticas para prevenção de perdas por vencimento, organizadas por etapa:

  • Antes de o produto chegar: melhorar a previsão de demanda; parametrizar estoques mínimo e máximo; revisar a cobertura; avaliar histórico de vendas e sazonalidade; controlar compras extraordinárias; avaliar prazo de validade na negociação com fornecedores.
  • Na entrada e no estoque: conferir lote e validade no recebimento; definir prazo mínimo aceitável para recebimento; registrar corretamente lote e validade no sistema; organizar o estoque priorizando a saída dos produtos com vencimento mais próximo; realizar verificações periódicas e manter boa acurácia de inventário.
  • Antes do vencimento: trabalhar com alertas preventivos; cruzar validade, estoque disponível e velocidade de venda; identificar SKUs sem venda e de baixo giro; bloquear ou reduzir novas compras quando necessário; avaliar transferências entre lojas; negociar devoluções com fornecedores quando previsto em contrato; definir responsáveis pelas ações e registrar as decisões.
  • Na gestão contínua: acompanhar o vencimento em reais e em percentual das vendas; fazer análise de Pareto dos maiores ofensores; investigar a causa-raiz de vencimentos recorrentes; monitorar por loja, categoria, SKU e fornecedor; medir reincidências; e manter procedimentos formalizados, com equipe treinada para executá-los.

 

Para Santos, o número que resume o desafio do setor é o próprio dado da pesquisa: 78,98%. “Ele traduz de maneira muito clara por que a gestão de validade precisa estar no centro da estratégia de prevenção de perdas do setor”, afirma. E o indicador mais relevante, na avaliação do presidente da Abrappe, não é quanto a farmácia perdeu por vencimento, mas quanto do estoque apresenta hoje risco de vencer. “Quando medimos apenas o vencido, estamos olhando para uma perda que já aconteceu. Quando identificamos antecipadamente o estoque em risco, ainda temos tempo para agir e preservar margem.”

Fonte: https://guiadafarmacia.com.br/farmacias-perdem-ate-r-14-bi-por-ano-com-medicamentos-vencidos-veja-solucoes/

Foto: iStock

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