“Quando os dados não fluem, decisões clínicas ficam incompletas. E quando a jornada do paciente fragmenta, a adesão ao tratamento cai e o valor gerado pelo medicamento aparece menos do que poderia”.
Maria tem 62 anos e trata a hipertensão há mais de uma década. Consulta no posto do bairro, faz exames em uma clínica e busca a emergência quando algo foge do controle.
Em cada porta, sua história começa de novo. Prontuários não conversam. Medicamentos são ajustados sem que o próximo profissional saiba do anterior. Essa rotina tem custo humano e financeiro.
A cena é comum e explica parte do desafio da indústria farmacêutica no Brasil. O problema não é falta de tecnologia ou de gente capacitada. É a dificuldade de ligar pontos que hoje funcionam em ilhas.
Quando os dados não fluem, decisões clínicas ficam incompletas. E quando a jornada do paciente fragmenta, a adesão ao tratamento cai e o valor gerado pelo medicamento aparece menos do que poderia.
O nó que atrapalha todo mundo
A fragmentação se consolidou em décadas. Modelos de pagamento que premiam volume, regras diferentes entre público e privado, contratos setoriais que não se falam, sistemas que não trocam informações.
A cada novo atendimento, o sistema perde contexto. O paciente repete exames. Os prestadores operam em paralelo. O financiador paga a conta sem visão integral do resultado clínico.
A indústria, por sua vez, tem dificuldade de demonstrar valor no mundo real e de sustentar programas de suporte ao paciente com dados confiáveis.
Para o gestor público, isso reduz a capacidade de planejar. Para as operadoras, aumenta o custo do cuidado sem garantir desfecho melhor.
Para hospitais, clínicas e farmácias, gera retrabalho e ruptura de continuidade.
Para universidades e centros de pesquisa, dificulta a produção de evidência.
Para a indústria, encurta o espaço para inovação, atrasa incorporação e enfraquece a leitura de efetividade ao longo do tempo.
Desafios específicos da indústria farmacêutica
No cenário atual, a indústria avança, mas ainda tropeça nos mesmos pontos. Integração, dados confiáveis e incentivos alinhados são a base, porém a execução esbarra em gargalos práticos.
- O primeiro desafio é o acesso. Regras e caminhos variam entre SUS e setor privado, entre estados e municípios, entre redes e operadoras. Sem integração, o tempo entre aprovação regulatória e uso consistente no cuidado pode se estender e a adoção acontece de forma desigual.
- O segundo são os dados. Sem bases interoperáveis, medir adesão, segurança e efetividade no dia a dia vira um mosaico de planilhas. A indústria perde a chance de mostrar valor com evidências do mundo real. Profissionais perdem o histórico contínuo do paciente. O paciente perde previsibilidade de tratamento.
- O terceiro é referente a logística e disponibilidade. Cadeias com pouca visibilidade ponta a ponta sofrem com rupturas, excesso de estoque em um lugar e falta em outro. Isso aumenta custo e frustra o paciente que não encontra o produto na hora certa.
- O quarto é confiança e governança. Programas de suporte funcionam melhor quando há clareza sobre finalidade, proteção de dados e benefícios concretos na jornada. Sem isso, a adesão fica tímida e a percepção de valor se dilui.
Tendências que já saíram do slide
Quando saem do slide e entram no fluxo do atendimento, essas tendências reduzem atrito para o paciente e criam valor para toda a rede.
Para funcionar, precisam de dados confiáveis, incentivos alinhados e execução no detalhe. A melhor porta de entrada costuma ser simples: começar onde já existe rotina e medir o que importa.
Começa pelos dados do dia a dia. Evidências do mundo real significam coletar e usar informações do cuidado cotidiano para apoiar decisões clínicas e acompanhar resultados ao longo do tempo.
Não é a mesma lógica do ensaio clínico. É juntar prontuários, registros de farmácia e indicadores assistenciais com consentimento claro e governança bem definida.
Muda também a forma de pagar. Sair do pagamento por volume para acordos que ligam remuneração a desfechos e experiência do paciente. Quando todos ganham com o resultado, integração deixa de ser discurso e vira requisito prático.
Na ponta do balcão, a farmácia vira ponto de cuidado. Serviços clínicos, orientação estruturada, checagem de interações e reforço de adesão aproximam o medicamento de uma jornada bem desenhada e reduzem idas e vindas desnecessárias.
Entre on-line e presencial, o cuidado híbrido dá ritmo. Prescrição eletrônica, acompanhamento remoto e teleorientação funcionam melhor quando estão acoplados ao fluxo do profissional e do paciente, não em aplicativos soltos.
Nos bastidores, cadeias mais inteligentes cuidam da disponibilidade. Visibilidade do estoque do fabricante até a gôndola, previsão de demanda e rastreabilidade reduzem ruptura e desperdício, e o paciente encontra o que precisa com regularidade.
Para fechar o ciclo, parcerias de pesquisa e educação alinham universidade, hospitais de referência, sociedades médicas e indústria.
O objetivo é produzir conhecimento aplicável, treinar equipes e atualizar protocolos com base em evidência. Quando essas peças se conectam, o paciente sente menos atrito e a indústria enxerga resultado.
Como a indústria pode avançar agora
Comece por um mapa da jornada do paciente para as principais linhas de cuidado. Identifique quando a experiência quebra e em que momento o medicamento perde valor por falta de integração. Transforme esse mapa em um roteiro de correções com prazos, donos e indicadores.
Escolha pilotos com poucos parceiros e objetivos claros. Um hospital, uma operadora e uma rede de farmácias já formam um ambiente suficiente para testar acompanhamento de adesão, prescrição eletrônica, educação do paciente e avaliação de desfechos. Pilotos bem governados escalam com menos atrito.
Estruture programas de suporte ao paciente que foquem em problemas concretos. Gente que esquece dose, que não entende como tomar, que não consegue buscar o medicamento na data certa. Suporte efetivo é o que retira barreiras reais do caminho e mede resultado clínico, não apenas contato realizado.
Implemente acordos de dados com proteção e propósito. Defina quais perguntas clínicas e operacionais quer responder. Garanta consentimento, anonimização quando aplicável e uso restrito. Quando a regra é clara, o dado trabalha a favor de todos.
Monte equipes multifuncionais. Comercial, médico, acesso, jurídico, tecnologia e supply olhando a mesma régua de sucesso. Sem sintonia, cada área corre em direções diferentes. Com sintonia, o projeto anda em bloco, aprende rápido e corrige rota.
E o papel do paciente nisso tudo
Integração não é apenas eficiência. É cuidado. Quando informações fluem, o paciente repete menos exames, ganha mais segurança e sente que há continuidade entre os pontos da rede. Orientação simples no balcão, retorno ágil após um exame, lembrança de dose, tudo isso diminui atrito e melhora resultado.
A indústria farmacêutica tem um lugar central nessa costura. Não para dominar a conversa, mas para ajudar a juntar peças. Onde houver dado confiável, parceria honesta e foco em desfecho, o medicamento deixa de ser um item isolado e passa a ser parte de um percurso que funciona.
O futuro não será decidido em um grande plano. Ele costuma nascer de acertos pequenos e consistentes. Integrar a jornada, medir o que importa, ajustar o que não funciona e repetir.
Se o paciente sentir a diferença no dia a dia, saberemos que as tendências deixaram o palco e entraram no cuidado.
Alex Osoegaa e Felipe Baran
