Estudo da PWC mostra que rápida evolução desses medicamentos encontra no país um terreno especialmente fértil
Os medicamentos da classe GLP-1 consolidam-se como um dos principais vetores de transformação da indústria farmacêutica mundial e o Brasil ganha relevância nesse cenário. É o que aponta o estudo da Strategy&Brasil, unidade de negócios da PWC, obtido com exclusividade pelo Panorama Farmacêutico.
De acordo com a análise, o mercado global saltou de US$ 13 bilhões (R$ 67,5 bi) em 2022 para US$ 48 bilhões em 2024, com projeção de atingir US$ 183 bilhões (R$ 249 bi) em 2030, ou seja, crescimento anual composto de 25%.
O cenário brasileiro também é animador e deve passar de US$ 2 bilhões (R$ 10,4 bi) em 2026 para US$ 9 bilhões (R$ 46,7 bi) em 2030. Se confirmada, a taxa de crescimento anual composta seria de 35%, acima da média global.
A evolução tecnológica das terapias explica parte desse avanço. Após uma primeira geração de medicamentos com aplicações diárias e baixa adesão, surgiram formulações semanais que ampliaram o uso. O salto mais expressivo ocorreu com os agonistas duplos, capazes de promover perdas de peso entre 15% e 20% da massa corporal, desempenho comparável ao de cirurgias bariátricas.
Para Luciana Medeiros, sócia e líder de Varejo e Consumo da consultoria, as canetas emagrecedoras não estão apenas mudando o peso das pessoas, como também o peso das decisões de consumo. “O que vemos com o GLP-1 não é uma tendência passageira de saúde ou bem-estar. Começamos a lidar com um novo consumidor, mais planejado e com conhecimento sobre alimentação. Para as empresas, isso exige revisão profunda.

Os ventos favoráveis ao Brasil
Segundo o estudo, o Brasil reúne condições favoráveis para se tornar um dos maiores mercados de GLP-1 do mundo. O levantamento mostra que 68% da população adulta apresenta sobrepeso ou obesidade, percentual semelhante ao observado em países como Estados Unidos e Austrália.
Mesmo com o elevado custo do tratamento, a demanda segue aquecida. Em 2025, o país importou US$ 1,7 bilhão em medicamentos da categoria, quase o triplo do registrado em 2023, quando o mercado movimentava cerca de US$ 600 milhões.
A expiração da patente da semaglutida, em março de 2026, representa um marco para o setor. A entrada de novos players nesse mercado deve ampliar significativamente o acesso ao tratamento. Até o momento, a Anvisa já recebeu 17 pedidos de registro dessas versões.
Em maio, a EMS saiu à frente da concorrência com o Ozivy, que chega às farmácias em 15 de junho com um preço agressivo de R$ 287 para os três primeiros meses de tratamento através do Programa Vida + Leve, passando, posteriormente, para R$ 498 por caneta.
Outra empresa que aguarda liberação da Anvisa para apresentar a sua semaglutida ao mercado e a Ávita Care. A importadora brasileira deixará a comercialização de suas canetas a cargo da farmacêutica Sandoz.
“O país reúne uma combinação única de fatores – alta prevalência de obesidade, forte cultura estética e a iminente queda de preços com a chegada dos genéricos. Isso coloca o mercado nacional às portas de uma segunda onda do GLP‐1, muito mais ampla e com impacto direto sobre o consumo”, pontua.
Novo consumidor impacta o varejo
O estudo mostra que o impacto dos GLP-1 vai muito além da perda de peso. Ao atuar nos mecanismos de recompensa cerebral, os medicamentos influenciam decisões de compra e hábitos cotidianos.
Entre os usuários pesquisados, 56% afirmaram adotar escolhas alimentares mais saudáveis, enquanto 47% passaram a consumir porções menores. Outros 29% relataram redução dos gastos com alimentação e bebidas, direcionando parte do orçamento para categorias ligadas à saúde, bem-estar e estética. A pesquisa também identificou que 47% aumentaram a frequência de atividades físicas, enquanto 40% reforçaram investimentos em aparência e beleza.
“Para o varejo farmacêutico, o cenário abre oportunidades em categorias complementares ao tratamento, como suplementação proteica, vitaminas, nutricosméticos, dermocosméticos e produtos voltados à manutenção da massa muscular”, acredita Luciana.
Canal farma ganha espaço na jornada do paciente
A democratização do acesso aos medicamentos tende a ampliar o papel das farmácias na jornada de tratamento. O avanço das prescrições digitais e dos serviços de telemedicina já contribui para aumentar a procura por esses medicamentos nos canais formais de venda.
Além da dispensação, cresce a demanda por orientação farmacêutica relacionada ao uso correto dos produtos, manejo de efeitos adversos e acompanhamento de terapias de longo prazo.
Outro movimento relevante envolve categorias associadas aos efeitos secundários do emagrecimento acelerado. O estudo destaca o potencial de crescimento para produtos destinados à saúde capilar, cuidados com a pele, suplementação nutricional e protocolos de bem-estar.
Oportunidades para a indústria
Segundo a análise, a queda de preços decorrente da entrada de biossimilares e genéricos deve acelerar a incorporação desses tratamentos por consumidores da classe C, ampliando significativamente a base de usuários.
Para a indústria farmacêutica, o desafio será atender uma demanda crescente sem perder competitividade, enquanto para o varejo o momento exige revisão de portfólio, fortalecimento dos serviços clínicos e maior integração com as jornadas digitais de saúde.
O estudo aponta que o tratamento mensal equivale a mais de 70% do salário mínimo, restringindo o acesso principalmente às classes A e B. Com a chegada dos genéricos, espera-se ampliação do acesso e queda de preços.
Fonte: https://panoramafarmaceutico.com.br/exclusivo-glp-1-no-brasil-deve-chegar-a-us-9-bi-em-2030/